Não é da cultura americana que falo mas de um modelo de mundo que ainda predomina, o modelo do consumo. Este tema hoje me atravessa a garganta porque estou no olho do furacão, nunca imaginei nada igual. E isso me envergonha como ser humano. Cegos, comemos sem digerir; com uma imensa boca aberta, como uma criança carente, comemos as plantas, os animais, as pessoas, as relações, os afetos. Comemos sem digerir, e vivemos uma coletiva indigestão. Depressão, ansiedade, compulsão, psicopatia, dispepsia psíquica. Há mais de duzentos anos estamos assim, até que a terra exaurida, a cultura exaurida entre em colapso como agora. Vivemos uma radical crise econômica, ambiental, social, ainda bem. Muito bem vinda esta crise de valores; neste caos contemporâneo está em nossas mãos reinventar o homem e o mundo ou não haverá homem nem mundo. Mas é preciso coragem. É preciso reaprender a ver.
Deixo vocês com um trecho da Hilda Hilst: "..ganhar dinheiro e usá-lo para aprender a olhar, quem o faria? Tão poucos os que se detém na raiz, o olhar alagado de vigorosa emoção, estou vivo e é por isso que o peito se desmancha contemplando, o coração é que contempla o mundo e absorve matéria do infinito.."
Quanto de infinito cabe em você? Esta é a grande pergunta, você cultiva vazio ou enche o copo sempre até a borda?
Viviane Mosé Arte: Sônia Menna Barreto Título: Gilberto Gil.
A frase que diz que comemos as pessoas, as relações e os afetos está me fazendo pensar. Que bom, eu sei, é para isso que serve um texto como este. Mas uma leve tristeza aparece em mim por eu não saber como estou "comendo" essas coisas. Penso em Guimarães Rosa e me sinto um pouco mais feliz: "porque aprender a viver é que é viver mesmo"
ResponderExcluirNão sei o quanto do infinito cabe em mim, mas uma coisa eu posso dizer: tenho muita dificuldade de "enfiar" ideias novas na minha cabeça. Observar outras pessoas e aprender com elas é fácil...mas absorver algum material delas, pra mim é difícil. Talvez isso não seja tão errado, pois eu sempre tento ser o mais original possível. Agora, colocar em mim um infinito é aceitar minha condição de vazio. Não posso nada por mim mesmo. Enquanto meu coração se apaixona, minha mente cria,meus olhos absorvem ideias de outras pessoas e assim, meu corpo de adapta: cria.
ResponderExcluirVivemos numa corrida contra o tempo. Queremos tudo. Com 20 anos já me sinto soterrada no meio de tantas expectativas. Ir bem na faculdade, iniciar uma vida profissional, prever muito antes disso tudo o que quero ser, enquanto a cada ano que passa, as minhas "certezas" se reduzem mais. A minha pergunta é: para onde vai isso tudo? De que vale viver nessa enorme correria, nessa enorme corrida contra o tempo? É preciso ficar atento para que não deixamos ser levados por essa loucura que o ser humano vive e acabar desperdiçando as melhores coisas que o mundo pode nos dar.
ResponderExcluirNossa sociedade, o mundo em que vivemos e tudo que nos rodeia nos enchem de ideias e ideais, muitos de valor, muitos falsos. Porém, nenhum deles vale realmente se cultivamos, como falado, o hábito de não digerir. Crescer a partir do que os outros podem somar a nós mesmo é muito importante, mas devemos parar para notar o que é de real valia, o que é usado para nos ludibriar e, principalmente, devemos lembrar que, no fim das contas, nós é que devemos dar sentido a nossa vida, torná-la feliz e completa ao nosso modo.
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