terça-feira, 6 de setembro de 2016

Por que planejar?



 

O sentimento é difuso, mas profundo. Várias gerações viveram com um sentimento de que basta ser sério, dedicado, ou até sacrificado, para que o sucesso seja alcançado. Ou seja, uma pessoa honesta e trabalhadora teria o seu lugar na sociedade. A erosão deste sonho gera um sentimento amplo de insegurança, e mais, de perda de referenciais. De certa forma, não é apenas o problema de ter ou não ter dinheiro para sobreviver, mas das próprias atividades terem ou não terem sentido. A crise é, neste sentido, de civilização”.

LandislauDowbor (2001)

 

A angústia frente aos dilemas da sobrevivência econômica assim como o mal-estar diante das dificuldades em ser reconhecido como sujeito produtivo são aspectos das condições de trabalho contemporâneas, que apontam para a necessidade de se refletir não apenas sobre as suas razões e consequências, mas também para a necessidade de propostas de atuação. Atuação essa que tenha como referência um aporte teórico crítico onde se problematize os efeitos das transformações contemporâneas, que superficialmente se apresentam como exigências de flexibilização e adaptação a uma nova cultura de obtenção e manutenção de atividades produtivas. E que, além disso, devem paradoxalmente se cruzar, com as orientações de sucesso e progresso profissional.

 

            A disciplina aqui proposta (*), embora leve em conta a ampliação dos processos de exclusão e de vulnerabilidade como geradores de novas dinâmicas que obrigam a todos a repensar o conceito de emprego, carreira, vinculações e até mesmo a ideia de futuro como algo que deve ser previsto, não reafirma a sua lógica.  Dentro dessa perspectiva são questionados os efeitos dessa lógica sobre os sujeitos. Uma vez que a impossibilidade de o futuro ser vivido como algo previsível para eles, estaria trazendo como consequência a impossibilidade de ser entendido ou experimentado como algo desejável e possível.

 

            A disciplina opera com a hipótese de que a realização de um projeto possa ser desenvolvida como uma oportunidade à ideia de um futuro possível, desde que entendido como uma ação no presente. Ação essa que se distancia de um exaustivo roteiro, mas que permita a adoção de um plano para a realização de metas, com a noção do tempo como algo que se faz em etapas que se encadeiam e que especialmente fazem sentido. 

 

            Pensar a inserção e o desenvolvimento produtivo é ir além de uma panacéia que se dá como respostas à reconfiguração do mundo do trabalho em função das economias globalizadas. Vai além da criação de negócios rentáveis, das ambições financeiras dos sujeitos, das cartilhas que ensinam os “10 passos para o sucesso” e, até, dos valores tradicionalmente associados à ideia de sucesso nas sociedades modernas. A inserção produtiva deve se ligar à capacidade de desencadear processos de desenvolvimento não apenas econômico, mas, sobretudo, social e humano. É ter a ousadia de olhar o entorno sem um elenco de visões pré-concebidas com as quais passamos a naturalizar todos os acontecimentos, neutralizando com isso as estranhezas, como o que acostuma acontecer no momento em que se “torna adulto”. É ter os olhos curiosos e o espírito ávido por transformações, e aprender com elas aceitando que o conhecimento se dá no próprio movimento. É ser capaz de promover mudanças exteriores, mas, principalmente, saber que elas começam do lado de dentro. É não temer as incertezas e acreditar acima de tudo em seus próprios ideais e objetivos, buscando-os com todas as forças.

 

             A existência de uma causa, como um fator de motivação, é essencial para que qualquer indivíduo chegue a algum lugar, sobretudo no que diz respeito à reinvenção de caminhos, à experimentação de alternativas ainda não testadas, à busca de realizações que expressem antes os desejos pessoais mais profundos que as expectativas da externas, com seus sonhos padronizados e seus conceitos engessados daquilo que é sucesso ou fracasso, do que é ser bem ou malsucedido. Com uma causa, o indivíduo encontra forças para resistir às incertezas e às adversidades, ao promover sinergias. As sinergias angariam parcerias, conquistam apoios e criam visões compartilhadas, capazes de gerar processos coletivos de força e atuação. 

                                               

Sandra Korman

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