sábado, 15 de outubro de 2016

Sou professor de bagunça.



Quando descobrem que sou professor universitário, as pessoas geralmente me perguntam:
- “Você dá aulas de quê?”
Sempre respondo que dou aulas de bagunça.
Por mais que provoque sorrisos, é uma resposta sincera e muito verdadeira.
Sou mesmo um bagunceiro.

Desarrumo os condicionamentos dos meus alunos com provocações para fazê-los pensar/agir fora da caixinha, do óbvio, dos clichês, das frases feitas.
Desorganizo seus lugares-comuns e convido cada um a ser senhor de seus pensamentos e autor de sua própria história.


Confundo seus olhares para que percebam que a leitura do mundo antecede a leitura da palavra, como nos ensinou Paulo Freire.
Baderno seus pressupostos para que ousem formular novas perguntas e questionar velhas respostas.

Segundo Donald Schön, os educadores expressam sua insatisfação com um currículo profissional que não é capaz de preparar os estudantes para a atuação competente em zonas incertas de prática onde podem acontecer momentos instáveis e conflituosos. Em outras palavras, preparar para as bagunças; como o arquiteto e filósofo Russel Ackoff (1979) chama estas situações incertas e mal definidas. A vida é mesmo uma bagunça, um caos de possibilidades.

A convivência com um professor pouco tradicional, que os ensina a tomar decisões em condições de incertezas e está disponível presencial e virtualmente cria novas pontes afetivas. E relação é diálogo, troca de ideias, exercício de doação recíproca. Afinal, o aluno não é apenas cognição. Ele também é sentidos e sentimentos. Acredito que o professor que valoriza a emoção cria um ambiente favorável para a promoção de pessoas emocionalmente saudáveis.

Nesse aparente caos estratégico consigo adaptar meu programa de ensino ao curso real de suas vidas, procurando construir conhecimentos para carreiras sustentáveis.


Aprendi com Bartolomeu Campos de Queirós que a “A vida é verbo. Passado, presente e futuro. A vida é cheia de enigmas. Quem colocou a água dentro do coco? A vida é uma grande fantasia. A criança vive de fantasia, portanto, vive de realidade. A tarefa do professor é confirmar a presença dessa criança no mundo.”

professortexto.blogspot.com existe há mais de 7 anos. Em média, 3 mil pessoas visitam o blog por dia. Utilizo o portal como ferramenta de suporte de minhas aulas. Ele desvenda os desejos e as limitações do professor e aposta mais na autoria do que na autoridade. E, nessa transparência, mostra aos alunos a delícia de ser autor de si mesmo.



Eles aceitam o convite. O afeto como caminho ao saber, e o saber como insumo da autoria, do protagonismo. Afinal, não é para isso que a escola e a universidade existem? Acho que os verdadeiros mestres têm, necessariamente, esse entendimento iluminista dentro de si.  O resultado tem sido alentador. A cada semestre, crio mais e mais leitores do mundo.  Estes jovens aprendizes descobrem que são capazes de empreender voos solos e tornam-se autores de suas histórias. Senhores de seus próprios destinos, amém.

Luiz Favilla - PUC-Rio

2 comentários:

  1. Favilla, acho que eu jamais recusaria um convite desses. Até agora tivemos apenas duas aulas, ou melhor, como você mesmo definiu em sala, dois encontros. Segundo você, teremos trinta desses encontros (de bagunça) até o final do período, mas eu já queria que fossem mais. É fácil notar o quanto que esse método de ensino pode nos ajudar, seja para facilitar a nossa comunicação ou para ler o mundo de uma maneira diferente, fora da nossa zona de conforto, questionando o que for necessário. Nós, alunos, deveríamos lutar por mais aulas assim, ao invés de nos acomodarmos com aulas teóricas monótonas, de professores robóticos que falam, falam, falam... Mas que, no final, nada nos acrescentam. É o famoso "passa por um ouvido e sai pelo outro". Estudamos para passar e só. Não é nem um pouco parecido com o seu método que, com apenas duas aulas, já me deixou ansioso e curioso para todos os próximos encontros. Imagine uma escola ou universidade em que todos os professores fossem assim... Com certeza todos os alunos iriam muito mais animados para as aulas, com o objetivo de aprender, compreender, melhorar e, acima de tudo, descobrir coisas novas, mais interessantes do que aulas mecânicas.

    ResponderExcluir
  2. Pedro Malan, bem-vindo. E grato pelo seu olhar carinhoso.
    Prometo continuar a bagunçar seus condicionamentos.
    =)

    ResponderExcluir