A gente fala
em clientes,
contatos, gerentes
de marketing, redatores,
diretores de arte,
consumidores e a primeira
coisa que eu queria dizer é que eles não existem. Na verdade, são apenas pessoas executando uma ação
de comprar um
bem, ou escrever um texto ou dirigir uma empresa. Na verdade, somos parte
de um grande
mar de pessoas
e o nome da nossa
profissão é: pessoas.
O esquecimento deste fato é que gera
os grandes equívocos
profissionais e, em
muitos casos,
os fracassos dos produtos
e das empresas. O industrial
que fabrica aparelhos
de som se envolve tanto
com o produto
que acha que aquilo que ele está
vendendo é um mini system com 100 watts
de potência de saída,
woofer, catalizador, tecla sap e outras
criptografias do gênero.
Qualquer anúncio
que transmita exatamente
isso, escrito
em português ou grego, tem exatamente o mesmo
efeito: ninguém
tem a menor idéia
sobre o que
você está falando. Porque
quem compra
um mini system com
100 watts de saída
é um ser humano, cujo desejo principal é ouvir música. A potência do sistema
só tem valor
enquanto fator
de melhoria da qualidade do som que se
pretende ouvir. Os fabricantes
em geral
levam muito a sério
os seus produtos.
O consumidor nem
tanto.
Uma pesquisa feita
pela Talent, há anos,
sobre percepção
de anúncio de revista,
revelou que o índice
de lembrança variava de no máximo 80% em um bom anúncio para um mínimo de zero. Ou seja, um dos anúncios
não foi registrado por
nenhuma das cem pessoas
que o leram. Exatamente
um anúncio
cheio de informações.
Por que
as pessoas não
registraram? Porque ninguém
é capaz de registrar
instantaneamente um grande
número de informações.
Eis porque
existem poetas e criadores.
Quando o Chico Buarque diz "passas em exposição, sem ver teu vigia catando a poesia
que entornas no chão",
coloca tal quantidade
de informações nesta frase que
permitiria escrever-se uma peça. No anúncio mais famoso de todos
os tempos, "Think Small", para o Fusca, há mais argumentos
sobre por
que uma pessoa
compraria este carro
feio, lento,
inseguro e desconfortável,
do que os alemães
poderiam colocar em
40 páginas de texto.
Esta síntese milagrosa criou um dos maiores sucessos da indústria
automobilística de todos os tempos. É por isso
que o mundo
precisa de poetas.
É por isso
que a comunicação
precisa de criatividade.
O mundo às vezes
se esquece disso e paga caro. Nos anos 80, inventou-se um
monstrengo chamado reengenharia que, em nome da eficiência,
demitiu dezenas de milhares
de pessoas no mundo
inteiro. Fechou fábricas,
cortou investimentos em pesquisas,
trocou a comunicação e os investimentos na marca
e nos conceitos
de produtos por
ofertas diretas de preços
e conveniência.
A propaganda ficou, por
uns tempos, direta,
racional, informativa, vendedora e burra. Diretores
financeiros e administrativos assumiram
as empresas e, em
muitos casos,
as agências de propaganda.
Existe a piada de um
especialista de reengenharia que
foi contratado para fazer
a reengenharia da Filarmônica de NY. Ele começou o relatório
dizendo que desde
logo notara um
grande desperdício
que, por
observação dos 40 violinos,
pelo menos 20
tocavam a mesma melodia;
percebendo também que
o músico mais
caro e de melhor
qualificação não tocava instrumento nenhum
e ficava na frente gesticulando.
Terminou por reduzir
a Filarmônica a 17 músicos
e colocou um violino
na mão do maestro.
Ninguém mais
assistiu à Filarmônica. E foi exatamente o que
aconteceu com as empresas.
Cortaram os custos, mas
perderam a competitividade e, em muitos casos, a
marca e até
a empresa.
Este foi o período
da propaganda pragmática.
Caracterizou-se por uma tentativa
frenética de rebaixamento das taxas das agências,
aviltamento nos
custos de produção,
aumento de promoção
e telemarketing, liquidações
e lançamentos de produtos
depenados. O resultado dessa filosofia pragmática
foi a quebra de setores
inteiros de lojas
de varejo. Por
exemplo: Macys, Sears, Bloomingdales nos Estados
Unidos e Mappin e Mesbla no Brasil, entre
outros.
Aí, os empresários
começaram a perceber que
alguma coisa estava errada. Começaram a perceber que empresas que não tinham feito
liquidação, não
tinham depenado seus produtos e feito
propaganda, estavam tendo resultados muito
melhores. A Brastemp, a Semp Toshiba e
a Coca-Cola, por exemplo,
fizeram o contrário, investiram pesadamente em criatividade para suas marcas. Da
mesma forma,
a Nike, Budwieser etc. etc.
O panorama hoje
é de uma procura frenética
pela criatividade.
Nunca obtive, na minha
experiência profissional,
uma demanda, uma fome
tão voraz
pelo novo, pelo
original. Este
é um fenômeno
mundial.
Por que
o criativo é importante?
Simplesmente porque
é percebido. Cada vez
mais a ciência
tem destrinchado os componentes
biológicos do comportamento e descoberto que não há compra que não seja emocional. Um fato
que se descobriu também
é que a lembrança
é diferente da memória.
A lembrança é um
instrumento de utilização
rápida, a memória
é um instrumento
de utilização lenta.
Quase todo
mundo lembra como
se chamava sua primeira
professora. A minha tinha
o nome singelo
de Alice. A lembrança fica disponível por um período muito longo se
estiver associada a elementos
emocionais.
Exemplo: cantar.
A quantidade de letras
de músicas que
uma pessoa é capaz
de lembrar instantaneamente é maior
do que qualquer
texto memorizado. Sem
exceção. Uma informação
que esteja associada
ao ato de rir
ou chorar se torna uma lembrança
forte. A informação
numérica e racional ninguém
consegue guardar. Às vezes,
nem o telefone
da própria casa.
Por exemplo:
todo mundo
sabe de cor o número
do seu CIC? Mas
a letra de Garota
de Ipanema, que tem um
número muito
maior de informações
do que os 11 algarismos
do CIC a gente consegue guardar.
Ser criativo
é transformar informações
irrelevantes sobre
produtos igualmente
irrelevantes num ato
emocional da percepção.
A percepção dificilmente ocorre por informação verbal direta.
Imaginem na campanha "Não é assim uma
Brastemp", se falássemos de chapas
de aço etc. Ninguém
guardaria.
É isso que
o mundo está descobrindo de novo. Chamo de nova,
uma descoberta muito
antiga.
Já tinha
um senhor no século XVI que
escreveu uma história sobre namorados
chamada Romeu e Julieta. Se você analisar, no fundo é uma história
trivial ou
besta, mas
na forma criativa
se tornou imortal. Representada há mais de três séculos.
É evidente que
o fator de perpetuação não é a história,
mas a forma genial de montar enredo e diálogos que permitam sintetizar
nesta peça a história
de todas as paixões do mundo. Mas ela não
resistiria a uma análise racional do enredo. É a história de uma moça
e de um rapaz
de duas famílias inimigas, que se apaixonam. Aí
a moça toma
um veneno
de mentirinha, finge que está morta. O rapaz acha que é de verdade e se mata, e ela se mata também.
Ponha assim em
um roteiro
e tente vender a um
cliente.
A gente está no negócio
de transformar a percepção
em um
ato emocional.
Pegue o Hino Nacional
e tente descobrir o que
ele quer
dizer. No entanto,
as pessoas choram quando
o ouvem.
Para que
serve um bebê?
Qual é a utilidade
de se apaixonar? Quanto
custa um
sorriso? Se repararem bem,
estou falando de quase tudo que
constitui a nossa existência.
Estou falando das guerras, das grandes obras e
talvez até
do fim do mundo.
Agora, nenhuma dessas coisas é racional,
porque as pessoas
são seres
emocionais dominantemente.
Racionalidade é uma faculdade
operária que
serve para a gente
aprender a amarrar sapato e somar a conta do supermercado.
O nome da nossa
profissão é “pessoas”.
Quanto mais
racional você
tentar ser, mais você vai se afastando
delas. Acredite na criatividade, no amor, na paixão,
isso é que
é lógico.
Um dos maiores
gênios criativos
de todos os tempos
da propaganda foi Willian Bernbach. Ele criou anúncios
fantásticos para
VW, Alka Selzer, Polaroid. Ele tinha duas frases:
A 1ª: Desconfio das pesquisas. Os executivos que
gastam muito tempo
lendo as pesquisas para
saber o que
acham do seu produto,
esquecem que a finalidade
da propaganda é justamente
modificar o que
as pessoas acham dos produtos.
A 2ª frase: "O risco
maior que
existe para um
anunciante é tentar fazer
propaganda sem
risco." O medroso
atrai a bala. As piores
campanhas são
sempre geradas pelas melhores intenções.
Tentar fazer uma campanha estritamente
baseada em
dados de pesquisas
é o mesmo que
colocar um gene de jumento no corpo de uma borboleta.
Alguns dos homens
mais ricos
e bem-sucedidos do mundo
são gênios
criativos. Bill Gates, por exemplo, não possui um metro quadrado
de terra nem operários e é o homem
mais rico do mundo. E só vai
continuar rico se continuar criativo.
Steve Jobs, que inventou o computador pessoal,
ganhou cem milhões
de dólares, com 24 anos
de idade. Um
dia os acionistas
da sua empresa
acharam que ele
era imaturo
e sonhador, foi demitido e contrataram um executivo racional. Em alguns anos, a
Apple quase foi à falência.
Foram buscá-lo de volta. Em seis meses,
inventou o IMAC. Fez acordo com a IBM, fez acordo
de parceria com
Bill Gates, ganhou um bilhão de dólares numa noite
e transformou a Apple de novo em
um império.
Criatividade e seriedade
são duas coisas
completamente compatíveis. As pessoas tendem a confiar nos banqueiros e desconfiar dos
poetas. Mas
são os poetas
que mudam o mundo.
Ana Carmen Longobardi
Ser criativo me parece algo muito abstrato. Antes, eu pesnava que deveria limitar a minha criatividade e todo o processo criativo ao campo da publicidade. "Eu quero fazer publicidade. Pra que eu vou tentar escrever um poema ou um roteiro?", eu pensava. Porém, eu acabei descobrindo, e não faz muito tempo, que a criatividade é livre. Se eu consigo criar uma boa campanha para um certo produto, por que eu não cosnigo escrever um bom roteiro para um filme? A resposta: AS REGRAS. Tudo no mundo tem regras. Eu não consegui fazer o meu roteiro passar em um concurso de roteiros de curtas metragens pois eu não conhecia as regras de como se escrever um roteiro. Para ser sincero com vocês, o texto não tinha nem formato de roteiro. Li um livro que dizia que as regras podem atrapalhar, e muito, o processo criativo. Atrapalhou o redator publicitário mais jovem do Brasil... Ele conseguia escrever poemas lindamente, mas não era capaz de fazer um anúncio que prestasse. As malditas regras! Todos lhes davam conselhos e dicas de como fazer um anúncio, mas ele não conseguia liberar sua mente a um fluxo de ideias. Meu roteiro não seguiu nenhuma regra do formato textual de roteiros...mas eu ainda acredito na sua história,e sinceramnete, achei que estava muito boa. Porém, não excluo a regra. Para que eu mude uma realidade, é preciso antes dominá-la; já dizia Freud. Assim, acho melhor eu aprender o formato de roteiro. Depois eu escrevo o texto mais louco que vier na minha cabeça e tento, com muito esforço, adaptá-lo às malditas regras.
ResponderExcluirAdorei o texto! Me identifiquei um pouco com essa questão da criatividade, pois hoje não me sinto criativo, pelo contrário, me sinto preso à fórmulas, a padrões que te dizem o que é certo e o que é errado, o que vai trazer sucesso ou fracasso. É difícil ser livre em uma sociedade que te diz o tempo todo o que deve fazer. Para mim a criatividade deve ser livre, deve ser estimulada desde cedo, contrariando a imagem acima para que não nos tornemos reféns dos padrões e caixinhas. Espero um dia poder voltar a ser livre para criar de novo.
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