domingo, 8 de julho de 2012

Alvará de soltura.


Costumo brincar que, para conseguir ler todos os livros que me enviam, se eu pegasse uma prisão perpétua. Pois é de estranhar que, habituada a fazer essa conexão entre isolamento e livros, tenha me passado despercebida a matéria que saiu semana passada em Zero Hora (da qual fui gentilmente alertada pela leitora Claudia) de que os detentos de penitenciárias federais que se dedicarem à leitura de obras literárias, clássicas, científicas ou filosóficas poderão ter suas penas reduzidas. A cada publicação lida, a pena será diminuída em quatro dias, de acordo com a Portaria 276 do Departamento Penitenciário Nacional (Depen). No total, a redução poderá chegar a 48 dias em um ano, com a leitura de até 12 livros. Para provar que leu mesmo, o detento terá que elaborar uma resenha que será analisada por uma comissão de especialistas em assistência penitenciária.


A ideia é muito boa, então, por favor, não compliquem. Não exijam resenha (eles lá sabem o que é resenha?) nem nada assim inibidor. Peçam apenas que o sujeito, em poucas linhas, descreva o que sentiu ao ler o livro, se houve identificação com algum personagem, algo simples, só para confirmar a leitura. Não ameacem o pobre coitado com palavras difíceis, ou ele preferirá ficar encarcerado para sempre.

Há presos dentro e fora das cadeias. Muitos adolescentes estão presos a maquininhas tecnológicas que facilitam sua conexão com os amigos, mas não sua conexão consigo mesmo. Adultos estão presos a telenovelas e reality shows, quando poderiam estar investindo seu tempo em algo muito mais libertador. Milhares de pessoas acreditam que ler é difícil, ler é chato, ler dá sono, e com isso atrasam seu desenvolvimento, atrofiam suas ideias, dão de comer a seus preconceitos, sem imaginar o quanto a leitura os libertaria dessa vida estreita.

Ler civiliza.

Essa boa notícia sobre atenuação de pena é praticamente uma metáfora. Leitura = liberdade ao alcance. Não é preciso ser um criminoso para estar preso. O que não falta é gente confinada na ignorância, sem saber como escrever corretamente as palavras, como se vive em outras culturas, como deixar o pensamento voar. O livro é um passaporte para um universo irrestrito. O livro é a vista panorâmica que o presídio não tem, a viagem pelo mundo que o presídio impede. O livro transporta, transcende, tira você de onde você está.

Por receber uma quantidade inquietante de livros, e sem ter onde guardá-los todos, costumo fazer doações com frequência para escolas e bibliotecas. Está decidido: o próximo lote será para um presídio, é só escrever para o e-mail publicado nesta coluna. Que se cumpram as penas, mas que se deixe a imaginação solta.
Martha Medeiros, Revista de O Globo, 08/07/2012

3 comentários:

  1. Infelizmente leio muito menos do que gostaria, tento justificar pela falta de tempo, mas não acho justo. A leitura não tem só o papel de libertar, para quem pretende ser comunicador, a leitura auxilia no crescimento do vocabulário. Já perdi a conta das vezes que perdi um argumento por não saber a palavra certa que deveria usar, ou pior, não consegui dar continuidade no que estava falando. O liberdade que a leitura nos dá, na verdade, tem um significado muito mais amplo

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  2. Ler liberta! Exatamente isso. Eu sempre fui apaixonada por livros, pulava de alegria quando ganhava livros - continuo pulando, confesso. -, que sensação boa. Pedia de natal, aniversário, amigo oculto...

    Quando era criança, aprendi a ler com ajuda de livros. Tudo bem que o bê-a-bá meus pais me ensinaram em casa e minha professora, que na época só era tia Célia, intensificou ainda mais com nossas cartilhas. Mas eu aprendi a ler com livros. Aprendi a dar pausas, entonação, interpretação. Eu achava incrível poder ler o mundo, mas não como aprendo a ler hoje. Ler a construção da frase mesmo, ler anúncios em outdoor, busdoor, ler placas de trânsito, ler os livros da minha irmã mais velha. Eu achava que tinha o mundo nas mãos, porque eu já sabia ler! Toda vez que saía com meus pais, voltava com um livrinho de historinha infantil ou um gibi da Turma da Mônica. Voltava pra casa lendo no banco de trás, quietinha, pra que ninguém brigasse comigo:

    “Mônica, lendo no escuro de novo? Quando chegarmos, você já vai ter lido tudo. Leia com calma!”

    Acho que foi o mais ouvi em toda infância. Diziam que não podia ler no escuro, não podia ler em movimento, não podia ler depressa, blá, blá, blá. Continuava lendo. E depois relia tudo pra eles. Fazia todos ficarem na sala, enquanto eu lia mais uma das aventuras da Mônica e do Cebolinha. Genial ter uma personagem com meu nome. Depois que a fase ultra egocêntrica passou, percebi que na verdade eu é que tinha o nome da personagem, mas tudo bem.

    Toda criança gosta que a mãe deite na cama com ela e leia um livro fantástico. Pois bem, eu gostava do inverso. Era eu que ia pra cama deles, abria um livrinho e lia uma história. Meus pais não deviam aguentar, eu até decorava as falas. Acho que até eles,
    não duvido nada que meu pai saiba todas as falas da “Bela e a Fera”, coitado. Haha

    “Um livro é um brinquedo feito com letras. Ler é brincar.” Rubem Alves

    Gosto de presentear com livros também. Livros dizem muito, o que é óbvio, mas não só as palavras impressas nas folhas, não só a história. Eles dizem muito sobre você, sobre seu gosto, sobre gostar de alguém. Não dou um livro por dar, aliás, ninguém gosta de sair comigo quando quero comprar livros para presentear alguém, sabe que até desconheço o motivo? Ok, mentira, eu conheço e conheço muito! Eu rodo tudo, pesquiso, rodo mais um pouco, pesquiso, não saio de lá sem ter a certeza que aquele livro significará algo para a pessoa em questão. Esses dias mesmo, minhas duas irmãs fizeram aniversário, decidi presentear a família inteira com livros. Minha melhor amiga foi morar no Sul, mais uma busca por livros.

    É tão gostoso imaginar que posso presentear com um mundo inteirinho e novo. Qual outro presente seria o mundo embrulhado que se pode carregar na bolsa? Qual outro presente poderia ser mais intenso, maior e mais eterno? Um livro bom não sai de você, ele passa a te compor.
    (Cont.)

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  3. (Cont.)
    A leitura nos permite ler o mundo através do nosso imaginário. A leitura dá subsídio para nossa escrita, para nossa criação de personagens e histórias, enquanto comunicólogos. A leitura nos impulsiona, nos ensina a escrever. Um livro vazio, sem ponto, sem foco, sem envolvimento não é de todo ruim, nos ensina, ao menos, a como não fazer.

    Já um livro bom... Ah, um livro bom nos encanta! Nos faz devorar cada página com intensidade. Mergulhamos nele como se o mundo não existisse lá fora. Até digo que se eu não soubesse o restante da música, afirmaria que Carolina não viu o tempo passar na janela por estar lendo um desses livros envolventes.

    Queria mais tempo pra ler. Eu sei que “quem quer, arruma um jeito. Quem não quer, arruma uma desculpa.” Mas não é nada fácil ter uma pilha com mais de vinte livros te esperando, enquanto você tem tanto da faculdade para fazer. Estou esperando ansiosamente a chegada das férias, vou entrar nessa “solidão não solidão”, nessa solidão que se faz solução. Até acho que, quando devorar os filhos que me esperam, vou descobrir - em algum deles -, uma solução, algo que poderia ter sido útil e genial para os afazeres da faculdade. Pena que não posso avançar a vida, dar uma conferida neles e voltar. A vida não é um livro com o fim já escrito, mas é texto que nós, autores, construímos a cada dia.

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