domingo, 20 de março de 2016

"As pessoas dizem quase sempre o contrário do que fazem ou do que gostariam de dizer"


Hoje, a pessoa sente e pensa por meio da mídia que, em nenhum momento, a ajuda a parar e refletir. A aceleração, por exemplo, que os apresentadores dos telejornais utilizam é incompatível com o ritmo respiratório, metabólico. A respiração fica suspensa. E suspensa, impede que as informações entrem e sejam metabolizadas. Impedem, inclusive, que a nossa mente (no sentido do conjunto de percepções, pensamentos e afetos) tenha tempo de excretar o que não serve. O indivíduo fica dopado pela sobrecarga informacional e pelo choque dissociante e contínuo que ocorre na gangorra de emoções que vai, sem interrupção, de notícias econômicas, políticas e sociais a notícias de que conseguiram salvar dois ou três pingüins ou que determinado time conseguiu derrotar seu adversário.
Neste ambiente, o sujeito, imerso nos dispositivos midiáticos (produção da mídia, instituições de mediação tradicional e práticas sócio-culturais) tornou-se o centro da exibição da potência da cultura tecno-lógica e não de sua própria potência.
É preciso que os sujeitos decidam remover dos estados mentais, por decisão deliberada da vontade, o lixo que pensam ser eles mesmos, voltando a pensar e a sentir o que interessa: o que os mantém vivos, lúcidos, amorosos, alegres, dedicados a enfrentar os conflitos. Precisamos remover todos os estados mentais que tentam sustentar a insustentável lógica da dominação, da produção midiática. 
Evandro Vieira Ouriques, coordenador do Núcleo de Estudos Transdisciplinares de Comunicação e Consciência (Netccon) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Entrevista completa aqui.

8 comentários:

  1. o problema, pelo menos ao meu ver, é que muita gente sabe e prefere continuar sendo iludida. a preguiça é uma espécie de veneno dos tempos modernos. as pessoas preferem ter os fatos "mastigados"; aceitam ver os pontos de vista deturpados por interesses comerciais; aceitam cair nas armadilhas de desejos incoerentes e desnecessários só para não se darem ao trabalho de raciocinar. lembro-me de uma vez em que ouvi uma pessoa dizer "não gosto de pensar" e tenho certeza que existem milhares de outras pessoas que não gostam de pensar também, preferem que alguém pense por elas. culpa, por mais clichê que pareça, da educação pobre - em escolas particulares ou públicas- que fazem com que o aluno aprenda a decorar e não a pensar numa lógica própria . T-R-I-S-T-E.

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  2. Mas às vezes eu acho que as pessoas se cansam de lutar contra a maré, uma onda que é muito forte. Às vezes, depois de muito bater você fraqueja. Tenho esperança de que as pessoas que têm preguiça de pensar estejam, na verdade, passando por um breve momento de lapso, colocando a mente em modo de descanso.

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  3. Engraçado que a gente conversava sobre isso hoje mesmo. Com o excesso de informação a pessoa apenas decora as "verdades" e as repete. Afinal, se apareceu na mídia é verdade, não é?!

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  4. treinemos então, nosso olhar, para o que realmente devemos ver e fazer...

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  5. Eu não tenho mais saco para telejornal. Na verdade, nunca tive muito. E conforme fui migrando para a comunicação, para o jornalismo, fui ficando ainda mais crítico, enfim.
    Tenho a teoria de que se no meio do JN, por exemplo, o William Bonner der uma receita de bolo de fubá, ninguém vai reparar. Entra por um ouvido e sai pelo outro. É um hábito meio cancerígena, pois as pessoas juram estar se informando, adquirindo cultura, enquanto na realidade estão perdendo tempo na frente de uma tela que vomita conteúdo - muitas vezes inútil - incessantemente.

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  6. "o sujeito tornou-se o centro da exibição da potência da cultura tecno-lógica "

    muito boa a frase, nunca parei para pensar a composição dessa palavra, realmente interessante

    vitrines errantes, sem vida e com assuntos fúteis.... ah (uma parte da) humanidade

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  7. Eu tenho muito medo das verdades que a Midia escolhe passar. Um dia lado A vilao, e no outro é o mocinho. Será que ninguem para pra pensar que as peças nao se encaixam, que ninguem pode pensar e falar por voce?

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  8. O mais estranho é pensar que eu, como jornalista, daqui a alguns anos, possa estar infligindo essas coisas a outras pessoas do mesmo jeito que acontece comigo enquanto ainda estou no papel de espectadora.

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