segunda-feira, 19 de setembro de 2016

De que lado você está?

No livro do escritor americano Daniel Pink, A revolução do lado direito do cérebro, o autor apresenta, de maneira simples, didática e muito bem fundamentada, as fases da nossa valorização como profissionais na história da economia recente. Na Era Industrial, o mais importante era ter músculos e persistência diante da adversidade. Gente com esse perfil era imprescindível nas linhas de montagem, e estava no topo da valorização (brutamontes incansáveis inspiraram personagens heróicos e inesquecíveis, ícones do ser humano ideal).

Na Era da Informação, onde os computadores entraram em cena o sujeito ideal era o que pensava de maneira estruturada na lógica e na matemática. Enfim, uma espécie predominantemente racional. Eram (alguns ainda o são) olhados sempre com respeito, pois faziam parte da elite dos “inteligentes”.  Daniel Pink argumenta que essa classe, representada principalmente pela galera da tecnologia, está sendo substituída por profissionais mais baratos, oriundos principalmente da Ásia (Índia, Tailândia e China, na dianteira). Europeus e americanos que estavam na crista da onda viram sua praia repentinamente ser tomada por haoles e estão tomando um caldo atrás do outro. Os salários caíram e a competência subiu.

O autor conclui que estamos entrando agora na Era Conceitual onde é preciso substituir a capacidade de análise pela de síntese. Integrar, em vez de modularizar. Dar mais espaço para o emocional e o artístico. Fazer as coisas de uma maneira diferente da lógica e convencional, ou, simplesmente, desenvolver a capacidade de cativar e emocionar.

Ele usa a metáfora dos dois lados do cérebro. O esquerdo é analítico e ocupa-se com a razão, com a estrutura, com a modularização das informações. É com esse lado que a gente aprende a ler e escrever, a formar palavras, a atribuir significados aos números, a encadear sequências lógicas, a analisar criticamente um problema.

O lado direito ocupa-se da síntese e trata da emoção, do subjetivo, do contextual. Esse é o lado que reconhece um rosto (sem se preocupar com as partes), que interpreta e entende piadas e frases de duplo sentido, que sintetiza informações, que conecta, que cria e inova.
O lado esquerdo é sequencial. O direito, simultâneo. Todo mundo precisa dos dois para viver (e sobreviver), mas o lado direito andou meio esquecido e desvalorizado por uns tempos. Agora ele volta a ser lembrado e vitaminado para contribuir mais.

Como bem lembra Pink, a excelência se produz quando os dois lados superpoderosos viram amigos e transpõem a barreira que os separa. Nenhum é mais importante que o outro. Mas para quem desenvolveu muito só um lado, convém dar uma atenção agora para o outro também, senão não vai conseguir se adaptar aos novos tempos. (...) Segundo o escritor, os designers são os profissionais do futuro porque são conceituais e têm o comando das potencialidades do lado esquerdo do cérebro - lógico, analítico e linear. Além disso, têm um senso estético muito apurado, facilidade para pensar o grande do retrato, ou seja, têm visão sistêmica. E, por fim, são criativos. Em breve, todo profissional precisará incorporar um pouco de designer dentro de si.

Alguns dos melhores engenheiros que conheci sabiam muito de história, esportes e um deles, inclusive, estudava música erudita. Amyr Klink, o navegador genial, escreve e fotografa muito melhor que muitos profissionais que conheço. Pintores consagrados como Da Vinci, sabiam tudo de geometria e mecânica. Dizem que a gente usa menos de 10% da capacidade do cérebro. Então, para que economizar o aprender, né?
Li no Fascioni     Arte: Campanha criada pela agência Y&R de Tel Aviv, Israel, para a Mercedes Benz.

4 comentários:

  1. Gabriela Gaia Meirelles - 15hsegunda-feira, março 30, 2015

    Fico feliz em ler essa matéria, Favilla. Que bom que vamos lentamente deixando a era do homem-máquina, do homem-hiper racional, hermético, perfeito, meticuloso e impecável. Que bom, mesmo! Até porque, em nossa essência, jamais seremos a máquina que por muito tempo nos exigiram ser. Somos imperfeitos, e é justamente dessa imperfeição que surgiram nossas melhores criações. É reconfortante, principalmente para nós, que trabalhamos com arte, criação e comunicação, saber que há cada vez mais espaço pra profissionais multi-tasks. Que as salas de aula sejam cada vez mais abertas ao erro, a troca de ideias, a um ambiente fértil e criativo como são as de Design. E que sejamos sempre estimulados a usar as múltiplas capacidades no nosso cérebro e adquirir cada vez mais conhecimentos de múltiplas áreas. Afinal, essa história de "saber fragmentado/especializado" é reducionista, limitadora e aprisionante. E que venha uma era de curiosidade ilimitada :)

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  2. Eu sempre fui muito interessada nessas conversas. Um episódio de Beautiful Minds, que falava sobre Autismo Savant, me fez mergulhar nesse mundo paradoxal que é a mente humana (vou postar um link no próximo comment). Eu sempre vi essa separação como uma limitação desnecessária, não a separação física do cérebro, mas aquela que as pessoas fazem entre técnicos e artistas, analíticos e emocionais. Acho que é por isso que o Cinema é incrível: toda a técnica e a matemática necessária pra fazer aquele plano romantico, simbólico e encantador.. Realmente, um lado não
    vive sem o outro, e são os dois igualmente incríveis e imprevisíveis.
    O melhor de tudo: a gente tá aqui. A gente vive o agora, esse tempo tão multiplo e pulsante que nos dá essa liberdade toda para ser quem e quantos quisermos.

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  3. Giovana Souza - 13hquarta-feira, abril 01, 2015

    Fico feliz de ver que as pessoas estão cada vez mais falando da importância do emocional e do artístico. Espero que esse pensamento não fique só na teoria, mas que seja levado, principalmente, para dentro das escolas. Gostaria de ver professores que investem em seus alunos por inteiro e que não os veem como meros números de matrículas.
    Infelizmente, a força da era da informática ainda é muito presente, mas cabe a nós desrrobotizar a sociedade e começar a deixar as pessoas mais confortáveis para ser quem realmente são. Soltar a franga mesmo! Como aceitar o fato de que numa época em que nunca tivemos tanta liberdade, os corpos serem tão parecidos como nunca antes?!

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  4. Fernanda Merege - 13hrssábado, abril 04, 2015

    Adoro o Daniel Pink :) Já li textos dele e assisti entrevistas com ele, e acho muito bacana o jeito que ele pensa e as inovações que ele propõe. Hoje em dia, vemos pessoas com uma capacidade incrível de unir o prático e o criativo, gerando produtos sensacionais. Às vezes dá um pouco de receio pensar em como o mercado de trabalho agora parece ter cada vez mais gente cada vez mais qualificada. Mas acredito que se trata de repensar o modo de olhar o mundo, tentar juntar coisas que, em um primeiro momento, parecem não ter nada a ver, mas que na verdade se complementam de uma forma um tanto inusitada. Acho muito animador ver que o mundo está tentando pensar de uma forma mais livre, porque é justamente a partir daí que idéias realmente inovadoras vão surgir :)

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