quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Criatividade em propaganda.



Pediram-me, a propósito, também um "programa de vida" para essa personagem abstrata, quase mítica: o publicitário criativo. Para não fugir ao desafio - mas sempre insistindo no fato de estar agindo temerária e discricionariamente -, vão sete sugestões genéricas e sete sugestões específicas:

SUGESTÕES GENÉRICAS:
1. Todos os dias leia dois jornais, uma revista, assista à TV (sem se empanturrar), escute música.
2. Vá ao cinema pelo menos uma vez por semana. Pelo menos. É melhor marcar logo um dia fixo.
3. Todo mês, vá ao teatro pelo menos uma vez. Ou a um concerto. Ou a uma exposição. Ou a tudo isso. Jamais, se possível, a um coquetel.
4. Todo ano, leia no mínimo 20 livros previamente selecionados. Apenas um sobre propaganda.
5. Viaje, sempre que possível, para qualquer lugar; quanto mais longe melhor. Quanto mais variada a direção na rosa-dos-ventos, melhor.
6. Programe uma viagem maior (ao exterior se possível, mas a Paraíba e Santa Catarina também servem),* pelo menos uma vez por ano.
* Saibam os paraibanos e catarinenses que escrevo no Rio de Janeiro!
7. Tenha hobbies e outros interesses, quaisquer que sejam, fora da propaganda. Fale pouco ou nada (se possível) sobre propaganda fora do expediente (mas mantenha uma luz acesa na cabeça...).

SUGESTÕES ESPECÍFICAS:
1. Ao entrar num aposento, trate logo de explorá-lo. Observe os detalhes e adornos, sinta a atmosfera, procure extrair o máximo de "informação" do cenário. Trate de viver qualquer recinto ativamente..., e não simplesmente"sentir-se à vontade".
2. Viajando em qualquer coletivo - ônibus, trem, avião - ou mesmo numa sala de espera, fixe a atenção em uma pessoa (ou em duas que estejam conversando) e "descubra" tudo sobre elas. Temperamento, formação, educação, situação financeira, personagem atualmente de que drama, que esperam da vida, como fazem amor, que fariam com um milhão de cruzeiros etc. Disseque seu infeliz companheiro de viagem...
3. Ao olhar uma foto - entre nela! Veja o que a foto não mostra (ou não mostra a todos). Uma boa experiência você faz com fotos do "Rio Antigo";ou "São Paulo Antigo": olhe as fotos da rua 1.º de Março ou da Praça da no início do século, e não repare apenas nos bondinhos puxados a burro, ou nas anquinhas da época: ao contrário:viva o cenário naquele dia, com aquele sol, o calor, os ruídos, o estupor da cidadezinha quase deserta, aquele cara na  porta da loja que olharia você passar com estranheza etc. Em seguida, dobre uma esquina, não tema "ver" as perspectivas daquela rua que se estende fora da moldura da foto.
4. Ande de vez em quando por sua cidade, que você todos os dias,como se nunca a tivesse visto. Imagine-se, por exemplo, como um polonês,que agora, adulto, está aqui pela primeira vez, nessa metrópole meio estonteante da América do Sul, olhando discretamente os "nativos", os brasileiros pelas calçadas, os cinemas, as lojas: agora você alugou um carro e se deixa levar pelo Aterro, ou pelo Minhocão, no meio desses edifícios maciços; muita riqueza, sim, mas que contrastes, subúrbios imensos,multidões, o porteiro negro do edifício da agência brasileira que lhe deu um emprego - tudo fica muito mais provocativo, interessante. Não exagere.
5. Não tema caricaturar ninguém, ou inventar situações incríveis e exóticas para quem quer que seja. Não é crime nem falta de respeitopelo contrário, é muito saudável. (Em Direito Penal, você pode planejar minuciosamente assassinar alguém, pôr por escrito todos os passos de seu projeto, comprar até a arma, balas etc, vem a polícia, descobre tudo – e mesmo assim você não cometeu crime algum enquanto não tiver principiado realmente a tentativa.) Você pode e deve inventar apelidos para todo mundo que o cerca - e isso não é mal nenhum enquanto você não os divulgar. Pode divertir-se com os resultados de um murro seu nas bochechas do principal homenageado na reunião mais importante que você tem de enfrentar, e no mínimo a "cena" com seus desdobramentos o ajudará a vencer a chateação do evento...
6. Junte recortes, artigos, títulos, textos,layoutsprincipalmente fotos,que o impressionaram. Folheie sempre que possível isso tudosão disparadores de idéias magníficos! Mapas, ilustrações, álbuns de peixes,veleiros, aviões, posters de circo, livro de recordes, notícia de jornal,caricaturas, anúncios incríveis, tabelas, coleções insólitas, tudo que particularmente o atraiu - não custa: guarde! E consulte de vez em quando...
7. Pergunte sempre a respeito de tudo: "e daí?", "por quê?", "para que serve?", "que novo uso (de persuasão) posso dar a isso?" Lembre-se que se usava o vapor, no Egito, em 120 a.C, mas apenas para mover um brinquedo.Alguém poderá dizer então que a Revolução Industrial teve de esperar 20séculos porque nem o inventor do brinquedo, nem os que o viram e se contentaram com aquele uso primitivo do vapor -ninguém formulou a si próprio: "E daí?", "Que novo uso posso dar a isso?", "Acaso não poderia usá-lo para economia de mão-de-obra?". (Imagine o início da Revolução Industrial no século II a.C... A Via Appia Ferroviária; vândalos e hunos encantados com seus rádios de pilha [ainda estão], as agências de propaganda multiplicando-se durante a Idade Média etc.) Pergunte-se sempre face a qualquer coisa: "Para que serve?", "Que novo uso posso dar a' isso'?". E anote.
(Roberto Menna Barreto, 1982)

15 comentários:

  1. A grande dúvida é: De que adianta tanta regra, se não há motivo para ser criativo?
    Como você, Favilla, disse uma vez, qualquer um pode ser criativo. O publicitário, jornalista, engenheiro ou o gari. O criativo só nasce quando necessita-se de criatividade. Não há diploma de criador.

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  2. Já havia lido isso tudo da primeira vez que foi postado, mas são conselhos tão válidos que valeu muito ter dado uma revisada. Gostaria apenas de acrescentar ao item 6 das sugestões específicas que um dos melhores disparadores de ideias para mim é um pequeno caderno que guardo e no qual venho anotando os acontecimentos mais interessantes da minha vida. A experiência de ler algo vivido e interpretado no passado por você, mas ter a sensação de que quem deixou aquele pensamento ali foi outra pessoa é, no mínimo, instigante.
    Além disso, nossas vivências mais aleatórias, passado um certo tempo, se confundem com sonhos que tivemos. Ou sou apenas eu?
    Do começo de 2011 até abril do mesmo ano, minha vida tinha caído em uma rotina. Já o mês de abril foi, sem sombra de dúvidas, o mais diferente de todos os outros em minha vida! E logo depois desse pico de coisas novas e completamente inéditas, retorno eu para a minha vida previsível que antecedeu a esse mês idílico.
    Aquele mês tornou uma lembrança quase falsa, de tão distante da minha presente realidade. Mas quando abro meu caderno e leio sobre as vivências do Renato de abril de 2011, descubro que ao menos um dos meus sonhos já foi real, um dia. Sendo assim, penso, quem sabe outros deles não venham a se tornar realidade outro dia também? Ganho esperança sempre que leio meu caderninho, e de certa forma, me inspiro a criar coisas novas.

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  3. Não sei se seguir sugestões é a melhor forma de se viver, principalmente para quem ainda não sabe quem é.

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  4. Acho que esse texto não se destina somente aos publicitários, mas sim à todos. A criatividade deve ser sempre exercitada e incentivada. Não importa se você faz um curso de humanas, biológicas ou exatas: a pessoa criativa surpreede. Esses pequenos exercícios não precisam ser visto como um dever de casa, são coisas tão leves que podem ser feitas por puro prazer.

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  5. Pilar Feldman - 15 hrsterça-feira, outubro 30, 2012

    Sugestoes tao basicas do dia-a-dia, que nao deveriam nem ser sugestoes, e sim, ja existirem em nos. Coisas que nos fazem bem, nos acrescentam. Verdadeiros motivos de nos tornarmos criativos. Nao basta viver, deixar a vida te levar. Voce deve participar, voce deve ser ativo. O que voce é e seus valores é que tornarão voce diferente do outro. Ser criativo é ter um diferencial. Estou em comunicacão para isso. Criar é uma coisa maravilhosa, basta querer e buscar isso em pequenas coisas do seu dia-a-dia.

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  6. Todas essas coisas com certeza farão de você muito criativo.
    Pra mim a criatividade vem das coisas da vida, da experiência. Como seria possível ter uma ideia nova sem conhecer coisas novas? Viver estimula a mente. Viver é aprender também, a cada dia e a cada experiência nova aprendemos alguma coisa; e são essas coisas que nos fazem ser criativos. Trabalhar a mente, deixa-la sempre em movimento!!

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  7. Que subjetividade... ser criativo é tudo isso e nada disso. Não há fórmula mágica nem receita de bolo. Vem das pequenas ou das grandes coisas, das experiências, das vivências... do sabor e do aroma de cada coisa. O que me inspira, não é o que te inspira. A criatividade é muito pessoal e, é exatamente por isso, que é tão criativa. Se fosse igual para todos seria só mais uma.

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  8. A criatividade é muito subjetiva! Não existe uma fórmula para ter criatividade, é uma questão de talento e viagens no subconsciente. Temos que estar sempre atentos em tudo que acontece ao nosso redor para percebermos cada detalhe, cada ângulo, cada enquadramento, assim como em uma arte plástica ou em uma fotografia.Cada detalhe nos remete a pensar a fundo. Pensar nos faz criar! Juntas fotografias, obras, filmes, em um só plano.As informações se unem e se transforma em um belo projeto de arte.

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  9. As sugestões do autor são ótimas. Elas devem ser postas em prática para ler melhor o mundo, para compreender melhor a vida. Pois não existem regras, dicas, fórmulas ou receitas para ser criativo. Não é simplesmente quebrar regras e fazer algo "diferente". Tem um bom senso aí, um "outro fator", experiência...
    Essa busca deve ser algo natural. Ou melhor, nem deve ser uma busca. E, por outro lado, isso vai acabar virando um outro condicionamento (alienação?). O que me leva a pensar se tem como sair completamente da caixinha...Já me perguntei diversas vezes: será que quando tento sair da caixinha me afundo ainda mais nela???





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  10. Yuri Hernandes - 15hquarta-feira, outubro 31, 2012

    A criatividade vem da nossa leitura de mundo. Não acho que é algo que se ensine. Ela vem através de nossas experiências. Então, observe, interaja, participe, trabalhe, viva. Qualquer um pode ser criativo, basta deixar aquela frase (eu não consigo) de lado e usar os dois lados do cérebro.

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  11. Assim como a Carol também penso que esse texto se aplica a todos. Achei até curioso porque eu tenho o hábito de reparar muito nas pessoas ao meu redor, me pego imaginando suas vidas e interesses o tempo todo. A criatividade, ao meu ver, surge do cotidiano, não vem de uma genialidade introspectiva e sim observar tão a fundo o seu redor que se descobre algo que sempre passou despercebido,

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  12. Acho que essas sugestões não são apenas para os publicitários. Cada pessoa pode aplicá-las na carreira que escolheu seguir e com isso desenvolvê-la da melhor forma possível. No fundo todos já temos conhecimento de tudo o que foi dito acima, mas vivemos uma rotina tão corrida que às vezes nos falta tempo de ter um segundo olhar sobre as coisas.

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  13. Como futura publicitária, sempre me preocupo com criatividade. Sonho em ser da área de criação, mas muitas vezes repenso isso porque não me considero muito criativa. Porém, ao ler esse texto, percebi que não faço muitas coisas que ele aconselha. Vou começar a praticar as dicas, elas são formas de abrir a mente e expandir os pensamentos. Não acho que Washington Olivetto e Maurice Levy criaram propagandas geniais apenas seguindo essa receita de bolo, mas acredito que essas atitudes podem ajudar no processo.

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