O Open Culture nos
presenteou com esse
ótimo vídeo ,
uma animação tipográfica
feita a partir de um podcast gravado pelo escritor , roteirista ,
jornalista , poeta e comediante britânico Stephen Fry.
O assunto
é um dos meus
preferidos, um dos preferidos dos
apaixonados por comunicação :
a linguagem viva .
E me lembrou de uma crônica maravilhosa
de Luis Fernando Verissimo, “O Gigolô
das Palavras ”:
Já estava até preparando, às pressas, minha defesa (“Culpa da revisão! Culpa da revisão !”). Mas os alunos desfizeram o equívoco antes que ele se criasse. Eles mesmos tinham escolhido os nomes a serem entrevistados. Vocês têm certeza que não pegaram o Veríssimo errado? Não. Então vamos em frente.
Respondi que a linguagem, qualquer linguagem, é um meio de comunicação e que deve ser julgada exclusivamente como tal. Respeitadas algumas regras básicas da Gramática, para evitar os vexames mais gritantes, as outras são dispensáveis. A sintaxe é uma questão de uso, não de princípios.
Escrever bem é escrever claro, não necessariamente certo. Por exemplo: dizer “escrever claro” não é certo mas é claro, certo? O importante é comunicar. (E quando possível surpreender, iluminar, divertir, mover… Mas aí entramos na área do talento, que também não tem nada a ver com Gramática.) A Gramática é o esqueleto da língua. Só predomina nas línguas mortas, e aí é de interesse restrito a necrólogos e professores de Latim, gente em geral pouco comunicativa.
Aquela sombria gravidade que a gente nota nas fotografias em grupo dos membros da Academia Brasileira de Letras é de reprovação pelo Português ainda estar vivo. Eles só estão esperando, fardados, que o Português morra para poderem carregar o caixão e escrever sua autópsia definitiva. É o esqueleto que nos traz de pé, certo, mas ele não informa nada, como a Gramática é a estrutura da língua mas sozinha não diz nada, não tem futuro. As múmias conversam entre si em Gramática pura.
Claro que eu não disse isso tudo para meus entrevistadores. E adverti que minha implicância com a Gramática na certa se devia à minha pouca intimidade com ela. Sempre fui péssimo em Português. Mas – isso eu disse – vejam vocês, a intimidade com a Gramática é tão indispensável que eu ganho a vida escrevendo, apesar da minha total inocência na matéria.
Sou um gigolô das palavras. Vivo às suas custas. E tenho com elas exemplar conduta de um cáften profissional. Abuso delas. Só uso as que eu conheço, as desconhecidas são perigosas e potencialmente traiçoeiras. Exijo submissão. Não raro, peço delas flexões inomináveis para satisfazer um gosto passageiro. Maltrato-as, sem dúvida. E jamais me deixo dominar por elas. Não me meto na sua vida particular. Não me interessa seu passado, suas origens, sua família nem o que outros já fizeram com elas. Se bem que não tenho o mínimo escrúpulo em roubá-las de outro, quando acho que vou ganhar com isto. As palavras, afinal, vivem na boca do povo. São faladíssimas. Algumas são de baixíssimo calão. Não merecem o mínimo respeito.
Um escritor que passasse a respeitar a intimidade gramatical das suas palavras seria tão ineficiente quanto um gigolô que se apaixonasse pelo seu plantel. Acabaria tratando-as com a deferência de um namorado ou a tediosa formalidade de um marido. A palavra seria a sua patroa! Com que cuidados, com que temores e obséquios ele consentiria em sair com elas em público, alvo da impiedosa atenção dos lexicógrafos, etimologistas e colegas. Acabaria impotente, incapaz de uma conjunção. A Gramática precisa apanhar todos os dias pra saber quem é que manda. (Li no UpDie)
Considerando o comum desconhecimento social do próprio português, exigir pleno conhecimento da gramática é um fardo até para lecionadores. Dentro da universidade vemos erros gritantes. Verbos mal conjugados, plurais esquecidos. Na rotina diária, então, chega a ser divertido! Transportes públicos e jogos de futebol são um prato cheio para boas risadas. Como cobrar perfeito conhecimento gramatical, sem mesmo poder cobrar um português correto? Sem nenhum eruditismo, somente correto! Valorizo muito a nossa língua, mas, como sempre, o brasileiro dá o seu jeitinho. O importante é saber se comunicar, expressar ideias e sentimentos!
ResponderExcluirBem vindo, João Kohn.
ResponderExcluir=)
Que texto genial! Lembro de uma aula de Português - que representava, para mim, um amor correspondido, ao contrário do que parece ter acontecido com o Verissimo - em que a professora, calmamente, anunciou: "Por isso, não existe certo e errado na Língua Portuguesa". Os alunos ficaram estarrecidos. Acho que eles teriam aceitado melhor a coisa toda se a professora tivesse dito que havia vida em Marte. Depois de um minuto de silêncio (afinal, alguma coisa tinha mesmo morrido), a classe pareceu se transformar na Assembleia Nacional da Revolução francesa, tanta era a discussão. "Como assim falar 'pobrema' está certo?", alguém se indignou. O sentimento geral foi resumido por um aluno mais desinibido: "Pelo amor de Deus, 'fêssora, para quê que a gente está na sua aula, então?" A aula terminou em caos e o assunto, esquecido, pelo menos por aquele ano. Mais tarde, conversando com professores do Ensino Médio, entendi direito o que a professorinha tinha tentado explicar para a nossa classe bárbara: a língua está viva. Só está viva enquanto é falada. E, assim como as pessoas que falam mudam, ela também tem de se transformar para conseguir sobreviver.
ResponderExcluirAo contrário do Verissimo, não vejo a Gramática com implicância nenhuma. Minha mãe, que é tradutora e é afeita às classificações sintáticas (nunca vi outra pessoa se divertir fazendo isso), me ensinou que conhecer os mecanismos gramaticais só ajuda a gente a escrever melhor. E escrever melhor significa dar instrumentos ao outro para que haja comunicação. Língua é mesmo para ser "abusada", para ser contorcida, distorcida. Só assim ela vira nossa - nacionalmente, coletivamente ou pessoalmente.
Agora entendi o seu DNA, Clara.(rss)
ExcluirA língua é mesmo viva. Caso contrário, estaríamos todos a falar latim até hoje.
=)