Quem escreve deve ter todo cuidado para a coisa não sair molhada. Quero dizer que da página que foi escrita não deve pingar nenhuma palavra, a não ser as desnecessárias. É como pano lavado que se estira no varal. Naquela maneira como as lavadeiras lá de Alagoas fazem seu ofício. Elas começam com uma primeira lava. Molham a roupa suja na beira da lagoa ou do riacho, torcem o pano, molham-no novamente, voltam a torcer. Depois colocam o anil, ensaboam e torcem uma, duas vezes. Depois enxáguam, dão mais uma molhada, agora jogando a água com a mão. Depois batem o pano na laje ou na pedra limpa e dão mais uma torcida e mais outra, torcem até não pingar do pano uma só gota. Somente depois de feito tudo isso é que elas dependuram a roupa lavada na corda ou no varal, para secar. Pois quem se mete a escrever devia fazer a mesma coisa. A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso, a palavra foi feita para dizer. Graciliano RamosTudo que se dá à leitura é texto. Afinar o olhar e saber ler o mundo é poder agir sobre ele, tecendo e destecendo a vida, assumindo a autoria de sua história. Inspirado no poema Ler o Mundo, de Afonso Romano de Santanna (1989), o portal nasceu em 2007 com a missão de mudar a perspectiva do olhar dos meus alunos de Comunicação Social e de Artes e Design da PUC-Rio. E transformou-se numa prática de leitura e de autoria fundamentada na interlocução e na parceria. luizfavilla@gmail.com
quarta-feira, 21 de março de 2012
Ofício de escrever.
Quem escreve deve ter todo cuidado para a coisa não sair molhada. Quero dizer que da página que foi escrita não deve pingar nenhuma palavra, a não ser as desnecessárias. É como pano lavado que se estira no varal. Naquela maneira como as lavadeiras lá de Alagoas fazem seu ofício. Elas começam com uma primeira lava. Molham a roupa suja na beira da lagoa ou do riacho, torcem o pano, molham-no novamente, voltam a torcer. Depois colocam o anil, ensaboam e torcem uma, duas vezes. Depois enxáguam, dão mais uma molhada, agora jogando a água com a mão. Depois batem o pano na laje ou na pedra limpa e dão mais uma torcida e mais outra, torcem até não pingar do pano uma só gota. Somente depois de feito tudo isso é que elas dependuram a roupa lavada na corda ou no varal, para secar. Pois quem se mete a escrever devia fazer a mesma coisa. A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso, a palavra foi feita para dizer. Graciliano Ramos
Até parece fácil do jeito que ele diz. Me faz lembrar o meu professor do Zaccaria que dizia que escrever é fácil: você começa com uma letra maiúscula, termina com um ponto final e no meio coloca as idéias. Hum-hum, tá, sei...
ResponderExcluir"No começo, você deve escrever levado pelo vento, até sentir que está voando. A partir daí, o ritmo e a atmosfera se desenham sozinhos. É só seguir o vôo. Quando você achar que chegou aonde queria chegar, é que começa o verdadeiro trabalho: cortar, cortar muito."
ResponderExcluirSabe de quem é, fessor?
Graciliano na cabeça!
ResponderExcluir=)
Mas já que vc está espertinha, diga-me lá de quem é esta:
"A diferença entre a palavra certa e a palavra errada é a mesma diferença entre um relâmpago e um vaga-lume."
O ofício de escrever é sem duvida um de muito cuidado e pasciência. Tem que ser transparente e limpo, embora seja dificil, pois o que tem que ser dito as vezes esta enterrado no fundo da terra ou da cabeça.
ResponderExcluirEssa é fácil, Luiz: Mark Twain.
ResponderExcluirFoi só copiar e colar no Google que ele deu a resposta. Rssssss....
;D
Bel, você é uma bocó!
ResponderExcluir=)
Juan, é bem por aí mesmo. Existem inúmeras tecituras sobre o assunto "ofício de escrever". Difícil dizer quais as melhores. Depende sempre do leitor. Uma das que mais gosto, além das já citadas: "Se algum homem quer escrever com estilo claro deve primeiro ser claro em seus pensamentos". Goethe
Cuidamos delas para que sejam nossas companheiras.
ResponderExcluirE acho que por não tê-lo feito ultimamente, me pego em dificuldades em alguns momentos. Me dão um puxão de orelha. Mas sempre estão dispostas a recomeçar!
Meu professor de Técnicas I,Claudio Bojunga,vivia dizendo: "O difícil é fingir que é fácil". E a arte de escrever não é nada fácil. É preciso cortar,cortar e cortar palavras. Escrever só o necessário sem ser incompleto ou impreciso. Por isso é necessário ler e reler,pensar uma,duas,três vezes e finalmente colocar o ponto final. E se fazer um texto está difícil,comece com um parágrafo,uma linha,uma palavra. Com a ideia formulada,o caminho fica mais fácil.
ResponderExcluirEsse texto lembra a atividade da Branca de Neve que fizemos. É importante sabermos ser claros e diretos no que queremos dizer. Economizar palavras é necessário, principalmente hoje em dia, que temos cada vez menos tempo e queremos que tudo seja mais rápido e objetivo.
ResponderExcluirEscrever para mim é a expressão artística que mais exige minha atenção na simplificação do que está sendo feito. É fácil na dança incorporar um exagero sem problemas. No teatro fazer o simples, o objetivo não exige muito esforço.
ResponderExcluirMas escrever... O ato da escrita me leva a palavra atrás de palavra e quando vejo não disse nada.
Posso até ter exemplificado isso neste comentário... Pode ser cheio de letras e vazio de significado. Ou não.
-salve Graciliano!-
Nathália Oliveira
Menos é mais. Isso não se aplica só em moda e decoração.
ResponderExcluirAssim que li o texto, lembrei do Bojunga. E a Priscila também =D
ResponderExcluirAcho que só os gênios são capazes de escrever um texto brilhante sem "alguns" rascunhos. Ou talvez nem mesmo esses. E não há nada de errado em ler e reler, cortar e rescrever o próprio texto. Escrever também é uma arte e o artista precisa dedicar-se a aperfeiçoar sua obra. Aparar suas pontas, amarrar seus nós.
O exercício da Branca de Neve me fez perceber como é difícil escrever apenas 3 linhas. Mas a alegria de ver o que antes, para mim, parecia impossível compensa a uma hora e meia em que fiquei encarando a tela do computador.
"Catar feijão se limita com escrever:
ResponderExcluirjogam-se os grãos na água do alguidar
e as palavras na da folha de papel;
e depois, joga-se fora o que boiar.
Certo, toda palavra boiará no papel,
água congelada, por chumbo seu verbo:
pois para catar esse feijão, soprar nele,
e jogar fora o leve e oco, palha e eco.
Ora, nesse catar feijão entra um risco:
o de que entre os grãos pesados entre
um grão qualquer, pedra ou indigesto,
um grão imastigável, de quebrar dente.
Certo não, quando ao catar palavras:
a pedra dá à frase seu grão mais vivo:
obstrui a leitura fluviante, flutual,
açula a atenção, isca-a com risco."
(João Cabral de Melo Neto)
Esse texto me lembrou muito esse poema!
É por isso que quando você escreve, devemos sempre, ler, reler, ler de novo e mais uma vez. Sempre tem alguma coisa pra acrescentar ou mudar.
ResponderExcluirDizem que as palavras o vento leva. Mas eu não acredito nisso.
Palavras, textos, livros, roteiros marcam nossa vida como se fosse uma pessoa.
Graciliano Ramos é fantástico! Concordo plenamente com ele! Um texto deve ser composto somente por palavras necessárias: cada uma deve apresentar um significado e um valor. Quando uma frase está bem escrita, se uma palavra (qualquer que seja) for retirada, o sentido da frase muda completamente, alterando a mensagem que se queria passar. Daí a dificuldade daquele que escreve: ele deve selecionar bem as palavras e escrever da forma mais simples possível. Escrever mais do que o necessário é sinônimo de falta de clareza.
ResponderExcluirO escultor tira do bloco cru aquilo que não deveria estar ali e mantem apenas o ouro, a forma encantada. Escrever é esculpir. Quem pensa que a palavra deve brilhar mais que a ideia, corre o risco de esculpir formas torpes. A fantasia vem antes da profissão do escritor, da palavra, do movimento da mão que grafa as letras no papel. É no pensamento que mora o encanto.
ResponderExcluirAnderson: 'É no mundo possível da ficção que a pessoa se encontra realmente livre para pensar, configurar alternativas, deixar agir a fantasia. Tudo que penso posso escrever. A fantasia não me pergunta se isso é real ou não. Tudo que quero é possível' (Bartolomeu Campos de queirós)
Excluir=)