Nos tempos em que eu era professor da Unicamp, fui designado presidente da comissão encarregada da seleção dos candidatos ao doutoramento, o que é um sofrimento.
Dizer "esse entra, esse não entra" é uma responsabilidade dolorida da qual não se sai sem sentimentos de culpa. Como, em 20 minutos de conversa, decidir sobre a vida de uma pessoa amedrontada? Mas não havia alternativas. Essa era a regra.
Os candidatos amontoavam-se no corredor recordando o que haviam lido da imensa lista de livros cuja leitura era exigida. Aí tive uma idéia que julguei brilhante. Combinei com os meus colegas que faríamos a todos os candidatos uma única pergunta, a mesma pergunta. Assim, quando o candidato entrava trêmulo e se esforçando por parecer confiante, eu lhe fazia a pergunta, a mais deliciosa de todas: "Fale-nos sobre aquilo que você gostaria de falar!". (...)
Pois é claro! Não nos interessávamos por aquilo que ele havia memorizado dos livros. Muitos idiotas têm boa memória. Interessávamo-nos por aquilo que ele pensava. O candidato poderia falar sobre o que quisesse, desde que fosse aquilo sobre o que gostaria de falar. Procurávamos as idéias que corriam no seu sangue! A reação dos candidatos, no entanto, não foi a esperada.
Aconteceu o oposto: pânico. Foi como se esse campo, aquilo sobre que eles gostariam de falar, lhes fosse totalmente desconhecido, um vazio imenso. Papaguear os pensamentos dos outros, tudo bem. Para isso, eles haviam sido treinados durante toda a sua carreira escolar, a partir da infância. Mas falar sobre os próprios pensamentos —ah, isso não lhes tinha sido ensinado!
Na verdade, nunca lhes havia passado pela cabeça que alguém pudesse se interessar por aquilo que estavam pensando. Nunca lhes havia passado pela cabeça que os seus pensamentos pudessem ser importantes. Parece que esse processo de destruição do pensamento individual é consequência natural das nossas práticas educativas. Quanto mais se é obrigado a ler, menos se pensa. Schopenhauer tomou consciência disso e o disse de maneira muito simples em alguns textos sobre livros e leitura. "É por isso que, no que se refere a nossas leituras, a arte de não ler é sumamente importante".
Isso contraria tudo o que se tem como verdadeiro, e é preciso seguir o seu pensamento. Diz ele: "Quando lemos, outra pessoa pensa por nós: só repetimos o seu processo mental". Quanto a isso, não há dúvidas: se pensamos os nossos pensamentos enquanto lemos, na verdade não lemos. Nossa atenção não está no texto. Ele continua: "Durante a leitura, nossa cabeça é apenas o campo de batalha de pensamentos alheios. Quando esses, finalmente, se retiram, o que resta? Daí se segue que aquele que lê muito e quase o dia inteiro perde, paulatinamente, a capacidade de pensar por conta própria. Esse, no entanto, é o caso de muitos eruditos: leram até ficar estúpidos. Porque a leitura contínua, retomada a todo instante, paralisa o espírito ainda mais que um trabalho manual contínuo".
Nietzsche pensava o mesmo e chegou a afirmar que, nos seus dias, os eruditos só faziam uma coisa: passar as páginas dos livros. E com isso haviam perdido a capacidade de pensar por si mesmos. "Se não estão virando as páginas de um livro, eles não conseguem pensar. Sempre que se dizem pensando, eles estão, na realidade, simplesmente respondendo a um estímulo —o pensamento que leram... Na verdade eles não pensam; eles reagem. (...) Vi isso com meus próprios olhos : pessoas bem dotadas que , aos trinta anos , haviam se arruinado de tanto ler . De manhã cedo , quando o dia nasce, quando tudo está nascendo — ler um livro é simplesmente algo depravado ...”.
Rubem Alves Da série vale a pena ler de novo. Arte: Vladimir Kush
Rubem Alves Da série vale a pena ler de novo. Arte: Vladimir Kush

'the logical song' feelings esse texto
ResponderExcluirSe formos pensar por esse lado tudo seria extramamente incoerente. Eu não leria seu blog, você não leria o meu, jornais não fariam sentido... Ah, sei lá, posso estar exagerando. Acho que ler quem te inspira é mais que fundamental. Constrói nosso ser, assim como a influência de nossos pais. O espírito da coisa é tentar pensar por si mesmo também a partir do que está escrito por aí.
ResponderExcluirNão sei se consegui me expressar muito bem, mas enfim... hahaha
Beijos
Estamos tão acostumados a ter aquela coisad ecorada "Quero trabalhar por isso isso e isso e sou competente por isso isso isso e isso."
ResponderExcluirNormalmente não estão interessandos pelos que nós somos de verdade só pelos nossos conhecimentos.
É a questão da fôrma, novamente. Todo mundo está acostumado ao cartesiano, ao quadrado. Pensar fora da caixa, para alguns, é um esforço tão sobrenatural que beira o impossível.
ResponderExcluirPassamos por cima de nós mesmos o tempo todo em prol de pensamentos alheios. Para muitos estar escrito é sinônimo de verdade absoluta. Fora dos trilhos, além de diferentes, as idéias são bem mais tentadoras e envolventes.
ResponderExcluirCamila, acho que a questão aqui não é "lermos quem nos inspira.", mas "lermos o que somos obrigados por outros."
ResponderExcluirNormalmente você tem uma lista tão grande de livros "essenciais" para estudo, que não há nem tempo de ler aquilo que é essencial para sua vida..
E aí, é o tipo da coisa.. Você, na verdade, não está retirando nada daquela leitura, apenas palavras que decora e tenta uní-las para que façam algum sentido e assim possa convencer alguém.
Acho preocupante, de verdade, que as coisas fluam desse jeito.. Em breve seremos máquinas, que pouco produzem coisas novas, porque estamos presos a livros únicos e teoricamente iguais. Triste..
A maneira como as ecolas tentam aproximar o aluno dos livros é no mínimo arcaíca. Na verdade, "aproximar" não é a palavra certa, os colégios obriga-os a determinadas leituras submetendo-os a provas.
ResponderExcluirO primeiro contato deles é na maioria das vezes traumatizante. Exigir leituras complexas a crianças resulta num efeito contrário do que se pretende ter. Aliás, não sei o que passa na cabeça dos educadores para acreditar que um estudante de 10 ou 11 anos vai se maravilhar com um livro de Machado de Assis. A não ser que seja um gênio. Essas experiências causam choques e bloqueios, a maioria começa a achar o hábito uma chatura.
E provas ou avaliações já não podem constatar nada porque existem centenas de resumos dos livros na internet.
O ideal seria tentar envolver, instigar e despertar a curiosidade dos alunos desde pequenos para com a leitura. Promover debates e discussões para que pudessem expressar suas opiniões quanto a eles e questioná-los.
Por fim, descordar de Schopenhauer e Nietzsche pode ser considerado uma calamidade acadêmica. No entanto, discordo complentamente em relação a esse assunto. Acredito que quanto mais você lê mais é capaz de formar uma opinião própria e questionar verdades tidas como absolutas. Ler abre a mente e ajuda a pensar diferente. Se deparar com interpretações e opiniões contrárias, ao meu ver é o que nos faz consolidar as nossas a partir daquilo que concordamos ou não.
Esse post me resgatou...
ResponderExcluirQuando a escola foi fundada, na Grécia Antiga, como uma instituição estritamente filosófica, seu papel era fazer as pessoas pensarem e não aprenderem.
Porém, hoje o papel foi totalmente invertido, a escola serve somente para ensinar enquanto todo e qualquer pensamento é brutalmente oprimido.
O princípio da educação é estimular o saber através da liberdade, onde o indivíduo aprende de acordo com o que lhe convêm e assim desperta a vontade do saber.
Na escola de hoje a vontade do saber é massacrada pela obrigação imposta de aprender. E aprender o quê? O que julgaram ser importante... Juntaram um monte de matérias distintas e nos obrigaram a conhecer.
Perguntaram se queremos? Não, apenas nos empurraram isso goela a baixo e quando tentamos nos separar e pensar, assim como a escola clássica pregava, somos punidos de formas cada vez mais infantis.
A escola atual é uma fábrica de alienados padronizados que só sabem o que lhes é imposto. Não pensam, só escutam; não buscam, só aguardam; não agem, só obedecem.
A escola está matando o ser humano, acabando com o indivíduo e massificando o pensamento, não dando espaço para a mudança.
Ela é um orgão conservador integralista e não merece ser chamada de escola. Deveríamos chamá-la de Campo de Concentração Intelectual.
Como ela perdeu seu sentido durante o tempo? Quando o capitalismo percebeu que poderia usá-la como uma fábrica de humanos que não pensam e que podem obedecer à ordem do capital.
E até hoje continua com esse sentido: ela vende alunos imbecis para o mercado de trabalho como simples produtos.
Os que se negam a se submeter tão facilmente a cultura inútil e a imposição do capitalismo são rapidamente oprimidos de toda a forma para serem massificados e virarem alunos ideais do mundo capitalista ideal onde todos são máquinas e podem ser trocadas a qualquer momento.
Hoje estava conversando com minha mãe e meu irmão justamente sobre escola; como, apesar de ser importante, nos torna, de certa forma, bitolados. Os alunos mais inteligentes são os que tiram notas mais altas (mesmo que sejam os tais idiotas de boa memória, como citado no texto), não há praticamente espaço algum para que o aluno abra a mente, "saia da caixinha". Isso tudo me parece muito distante da realidade, na qual precisamos sempre nos reinventar e também refletir a fim de lapidarmos nossos talentos. A escola então, não prepara, mas arrebanha os alunos e os força a não desenvolverem suas características únicas. Não precisa exagerar, criar sistemas loucos de ensino, a "simples" atitude de considerar o lado emocional dos alunos já faria grande diferença. Quantos bons alunos se desgastam tanto mental e fisicamente nos estudos para o vestibular e acabam não passando? As escolas só querem lutar contra calendários anuais de provas e acabam não proporcionando aos alunos certa estabilidade emocional para que sejam bem sucedidos. Uma pena .... (desabafei)
ResponderExcluirAdoro o Rubem Alves! Já li e reli o livro dele "Perguntaram-me se acredito em Deus" mil vezes!!! A visão dele de mundo é maravilhosa, quase todas iguais às minhas filosofias de vida! Não conhecia esse texto, muito bom!
ResponderExcluirSobre o assunto, depois de ler todos os comentários, me lembrei de uma conversa que tive com um amigo meu que estuda engenharia. Ele falou que é interessante como os alunos do curso dele se fecham tanto em conteúdos como física e matemática, que acabam perdendo uma visão mais ampla do mundo. Para ele, os alunos do comunicação sabiam mais, se interessavam mais por assuntos diversos. Eu concordo com ele. Na vida, a gente tem que procurar o equilíbrio, não adianta nada saber muito sobre uma coisa só. Tem que saber de tudo um pouco, dar espaço ao vazio, explorar todos os lugares possíveis.. O céu é o limite!
Caro Favilla, há algo de incoerente com nosso querido autor. Ele contesta a leitura, argumenta que somos doutrinados a ler e esquecemos de pensar. Porém, se fundamenta em teorias de outros, citando Shopenhauer e Nietzsche, no minimo curioso.Seria ele mais um alienado? Esses dois contestam a leitura, porém escrevram e publicaram, querendo que alguem leia suas ideias. No fundo acredito que ambos queriam atingir o quarto degrau da piramide de Maslow.
ResponderExcluirPenso que as escolas estão voltadas para a decoreba, com foco de aprovação no vestibular,como em partes diz o texto, mas o problema não é excesso de leitura e sim a ausencia de. Afinal, a leitura abre novos campos levando a contestar um autor A, B, C e D, fugindo do aprendizado linear das verdades absolutas.
Já que Beto Passeri citou a Grécia antiga, vale relembrar a idéia de democracia na Polis, com os direitos de exprimir opiniões em público, tendo de defende-la com argumentos. A partir da "leitura" da voz do outro, surgia um novo pensamento, e assim sucessivamente tendendo ao infinito. Aquilo já era leitura, já que sua forma escrita só vale para registrar as informações - como ADORA falar nosso amigo Yke Leon-. Encerro meu comentário -quase texto- com uma frase dita por outros como de Sócrates; "Só sei que nada sei". Aprendo pela leitura, independente de oral ou escrita, o valor está no conteudo. Porém quem não lê continua um pote vazio.
Imagino o pânico dos alunos. Texto decorado, falas prontas, pensamento organizado e então alguém lhe tira dessa zona de conforto, de repente você tem que realmente pensar e falar abertamente sobre qualquer assunto. Tenho notado através dos seus exercícios como é difícil falar sobre si e sobre meus próprios pensamentos porque quando paro para colocá-los em palavras não fazem sentido algum ou estão completamente misturados, e parece que existe um tipo de filtro, digamos assim, do que parece racional e inteligente o suficiente para expôr para outra pessoa. Se alguém me pedisse para falar do que eu gostaria, ah, acho que levariam horas até conseguir formar uma sentença coerente. Porém, acredito que por mais que demorasse, tudo que eu dissesse seria mais verdadeiro do que qualquer texto decorado que estivesse na minha mente, consigo sentir agora mesmo uma certa ansiedade de escrever a minha opinião sobre isso. Quanto as palavras de Schopenhauer e Nietzsche, não tenho uma opinião formada ainda.
ResponderExcluirSempre que eu venho aqui, uma coisa acontece.
ResponderExcluirMe perco sempre, sempre um pouco mais.
Diante do desconhecido, o frio na barriga e medo.
Eu estou numa caixa, e tem aqui alguém me dizendo:
"Pensa fora dela"
Que nervoso!
" A caixa, a caixa, a caixa!"
E tudo o que me acontece internamente se torna inverso, me torno mais presa, a caixa maior.
Invariavelmente acabo voltando pra mim mesma, com as perguntas que me acompanham no fluxo do pensamento que tenta sair da situação.
Eu, minha cabeça e meus sentimentos, que parecemos seres distintos, corremos cada um numa direção diferente.
Acabamos sempre no mesmo lugar: Quem tem que dar a resposta para o enigma sou eu.
Criculos, caixas e "Meu Deus!"
De onde eu devo partir, o que deve me mover, pra onde isso vai me levar?
Ou mais simples, mais complexo: "Quem sou eu, mesmo?"
Em minha opinião acho que o que causa a alienação é o exagero. Seria a pessoa deixar de lado seus próprios pensamentos pelo pensamento de outro. O conhecimento de ser compartilhado e debatido, mas ninguém precisa ser de acordo sempre, basta ter coerência. Um livro, por exemplo, eu posso aprender um pouco mais sobre o assunto, refletir sobre tal e daí adotar o mesmo discurso do autor.
ResponderExcluirTudo depende do ponto de vista!
ResponderExcluirTalvez haja uma certa incoerência no texto, já que o próprio autor escreveu a fim de que alguém lesse, bem como Schopenhauer e Nietzsche. Na verdade vejo a leitura como formadora de opinião, onde o autor se torna um mediador. Quando lemos, podemos mudar o nosso pensamento em um segundo. E não porque estamos pensando como o outro, mas porque o outro está sempre nos acrescentando algo que antes não conhecíamos.
A delicadeza da leitura é muito mais profunda do que o simples fato de você pensar o que o outro pensa, ou não.
É sentir algo novo, é querer viver o antigo só para recordar. É renascer!